A Fundação
Os Arquitectos
A Documentação
Investigação
Edições
Conferências
Colóquios
Exposições
Cursos
Visitas Guiadas
Viagens Culturais
Outras iniciativas
Gravações vídeo
Newsletter
Contactos
Loja
Destaques
Carrinho de Compras
facebook
facebook
Casa e Jardins de Serralves « voltar às obras


Estudo sobre planta do r/ch da Casa na Quinta de Serralves, 1931

Início do projecto 1925
Data de início da obra 1925
Data de inauguração 1943
 

Classificação como Imóvel de Interesse Público 1996 (Dec. nº 2/96, de 6 de Março)
Reclassificação como Monumento Nacional 2012 (Dec. nº 31-G/2012, de 31 de Dezembro)

A casa e jardins de Serralves são uma das obras mais peculiares de Marques da Silva. A singularidade do conjunto resulta, em grande parte, do papel determinante que o dono de obra, o industrial têxtil Carlos Alberto Cabral, desempenhou ao longo dos cerca de 20 anos em que se desenvolveram as muitas fases, avanços e recuos do projecto e da obra, entre aproximadamente 1925 e 1943.
Carlos Alberto Cabral era fascinado pela cultura francesa, tinha uma casa em Biarritz e frequentava regularmente Paris e as suas lojas de decoração. Essa conexão parisiense fez com que o trabalho de Marques da Silva tenha, em grande parte, sido um trabalho de conciliação e coordenação das várias contribuições francesas. Em primeiro lugar apareceu Jacques Émile Ruhlmann, decorador que, para além de fornecer as mobílias que lhe tinham encomendado, propôs também a reconfiguração de toda a cenografia dos espaços de representação da casa, com o objectivo de obter os ambiente perfeitos para o seu mobiliário. Com o crescimento sucessivo do projecto apareceu Charles Siclis que, em contribuições esporádicas, caracterizou o invólucro exterior da casa. O terceiro arquitecto francês a contribuir decisivamente para o conjunto foi Jacques Gréber que, em 1932, consolidou o desenho do jardim, integrando uma série de linhas directrizes propostas por Marques da Silva, espaços existentes (o lago) e novas unidades formais do jardim. Ruhlmann morreu em 1933, a meio do processo, e o seu sobrinho Alfred Porteneuve ocupou o seu lugar no projecto de Serralves, contribuindo com um conjunto substancial de detalhes caracterizadores da casa. Marques da Silva, que esboçou as características base do projecto e foi detalhando todos os aspectos da construção ao longo dos muitos anos de obra, não só resistiu a todas essas interferências como lhes deu uma coerência particular, expressa na solidez e qualidade do conjunto.
Se a história da construção da Casa e Jardins de Serralves é um emaranhado complexo, o resultado construído esconde essa complexidade sob uma aparente serenidade. Nos anos 30 a rua de Serralves atravessava um conjunto de campos agrícolas na estrada que ligava o centro do Porto a Matosinhos e a casa original reflectia esse universo. Por outro lado, o processo de urbanização da Avenida Marechal Gomes da Costa, contemporâneo da construção da Casa, estava a atrair para a linha entre a Foz e a Boavista a construção de casas de luxo que seguiam padrões mais cosmopolitas. O resultado final da obra de Serralves, que tinha tido origem na casa agrícola, foi o expoente máximo dessa vontade de representação cosmopolita.
A casa tem a aparência exterior de uma obra moderna. Essa modernidade, de cultura francesa, correspondia ao gosto de uma sociedade conservadora – de fortuna recente conquistada na indústria – que se procurava filiar numa eventual herança de tradição aristocrática. Explica-se assim a axialidade dos jardins, à boa maneira de Versalhes, mas explica-se também a intensa relação entre os espaços interiores da casa e os espaços exteriores, à boa maneira da higiene moderna. A expressão depurada das fachadas, preenchidas com planos lisos e sem decoração, não resulta da utilização de uma nova tecnologia construtiva, mas pode evocar as vanguardas da arquitectura moderna. O recurso a sistemas sofisticados de aquecimento e outros aparelhos de conforto não faz com que a configuração dos espaços prefira a dimensão certa e confortável à escala monumental e representativa.
Todas estas ambiguidades estão muito longe do pragmatismo operativo das beaux-arts que caracteriza as primeiras obras de Marques da Silva. Nas ambiguidades de Serralves descobrem-se muitas ambiguidades das gerações de arquitectos que, formados na Escola de Belas Artes do Porto sob a batuta de Marques da Silva, transformaram a paisagem da cidade e da arquitectura portuguesa no século XX. A conclusão de Serralves, que se aproximou do final da vida do arquitecto, foi também um dos fechos da sua actividade profissional. Serralves ocupa essa posição peculiar na obra do arquitecto, assinalando a passagem de testemunho entre gerações. Essa passagem de testemunho fez-se através da capacidade de negociação com o cliente e, sobretudo, com uma agilidade astuciosa na gestão de múltiplos contributos para uma única obra.

 

Bibliografia de referência
FERNANDES, João, CAMARD, Florence, Jacques Emile Ruhlmann e a fraternidade das artes, Porto, Fundação de Serralves, 2009.
DINIZ, Victor Beiramar (coord.), Catálogo Acervo Carlos Alberto Cabral Conde de Vizela, Porto, Fundação de Serralves, 2007.
TAVARES, André, Os fantasmas de Serralves, Porto, Dafne Editora, 2007.
DINIZ, Victor Beiramar (coord.), Serralves 1940, Porto, Fundação de Serralves, 2004.
CARDOSO, António, CASTRO, Laura (coord.), Casa de Serralves, retrato de uma época, Porto, Casa de Serralves, 1988.

Localização
Porto, Rua de Serralves/Rua Dom João de Castro

Google map

© fundação instituto arquitecto josé marques da silva / uporto / design: studio andrew howard / programação: webprodz