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Posto duplo de abastecimento da Galp, no lugar de Covas, em Guimarães
Casa e Quinta da Covilhã

 

 

 

 

Posto duplo de abastecimento da Galp, no lugar de Covas, em Guimarães

 


Fotografia de época   


Fotografias José Bernardo Távora   

Por iniciativa da Fundação Marques da Silva, foi accionado o processo de classificação do Posto duplo de abastecimento da Galp, no lugar de Covas (Guimarães), em novembro de 2014. A proposta de classificação tinha subjacente a sensibilização das entidades competentes para a necessidade de preservar a harmonia, equilíbrio compositivo, formal e plástico do projeto original, num momento em que tnha pendente sobre si a ameaça de demolição das palas de betão armado, uma secção estrutural com valor identitário, essencial para a caracterização do conjunto. Aí se apelava para a compreensão do valor referencial, documental e patrimonial desta obra de arquitetura, certificando a importância do seu estudo e a sua relevância no contexto urbano e edificado de Guimarães, bem como no quadro da arquitetura portuguesa do século XX.

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Casa e Quinta da Covilhã


Fotografia de Luís Ferreira Alves

 

"Estou farto, cansado, desta vida de pedidos, de homens importantes, de burocracias, de repartições públicas.
Ficar porventura na Escola e ir viver para fora do Porto (tenho ódio à metrópole).
A Quinta e a Casa da Covilhã sorri-me extraordinariamente.
É um velho sonho...
Arranjar a casa, realizá-la por todos meios, pôr aí o meu atelier e na mata construir uma coisa assim como escola, uma pensão para artistas, um albergue para poetas, qualquer espaço em que pudessem dormir, comer e trabalhar os alunos da escola, pintores, escultores e arquitectos, que na quinta quisessem passar uma temporada trabalhando comigo.
Eu creio que isto é possível.
Viver na Covilhã e de vez em quando em Paris, Nova York, Lisboa, o Rio, de vez em quando o mundo sujo e tentador das metrópoles.
Viver na Covilhã, aí cultivar o milho, o vinho, aí ter bois, vacas e jardins, aí ver os pássaros construindo os seus ninhos, aí ver desperta as folhas da primavera, aí projectar edifícios para os homens que precisem de mim."

Diário, Foz, 20-21 de Abril de 1956, em "Escrita 4"

 

O conjunto formado pela Casa e Quinta da Covilhã, no lugar da Covilhã, freguesia de Fermentões, concelho de Guimarães, distrito de Braga, foi classificado a 19 de outubro de 2020 como monumento de interesse público. O gesto reconhece assim o  valor patrimonial contido nas suas múltiplas dimensões: arquitetónica, histórica, artística e simbólica.
 

A história desta Casa de família, que remonta ao século XVII, foi-nos contada pelo Arquitecto Fernando Távora num texto de 1983: "Eu sabia algo da sua alma e do seu corpo. Sabia-a iniciada por João, o mestre-escola e embaixador que morreu de saudade e de tristeza, enriquecida por Francisca que nascera na Baía, nobilitada pelo descendente de Bernardo, o secretário do infante que não chegou a morrer em Alcácer, renascida pelos dobrões que Luís António trouxera de S. João de Rei, despertada pelas iras de outro António, o cónego miguelista que saiu vencido, conservada pelo austero Adelino e tão amada por José.
Eu sabia-a forte e segura, nas suas espessas paredes de granito ou nas armações de castanho, mas descobrira-lhe já algumas cicatrizes, fruto de sucessivos crescimentos ou de agravos do tempo que, também a ela, não soube perdoar.
Eu amava a sua pobre riqueza, a sua carreira, o seu portão com seu muro, o seu terreiro, o seu jardim que outrora fora de buxo, algumas das suas fontes sem água, a sua velha nogueira, a beleza das suas camélias de fevereiro."

Vivia então o romance da sua transformação: "Havia que tocar-lhe e tocar-lhe foi um acto de amor, longo e lento, persistente e cauteloso, com dúvidas e certezas, foi um processo sinuoso e flexível e não um projecto de estirador, foi um método de homem apaixonado e não de frio tecnocrata, foi um desenho de gesto mais do que um desenho no papel."

Um processo que foi acontecendo: "Foram, assim, dez anos de muitos longos gestos e de algum pouco papel, dez anos fixando e decidindo com cautela as transformações que ambos – ela e eu – íamos amorosamente aceitando."

Neste cruzar de vidas, Fernando Távora sabiamente afirmava que "hoje ela está prosseguindo no seu espaço e no seu tempo e o seu desenho aí está escrevendo e recordando a história do nosso romance." Era o reconhecimnento de uma experiência intensa e transformadora que faz questão de dar a conhecer em "Onze arquitetos do Porto". Será para o catálogo desta exposição que redige o texto aqui citado.

A relação única que Fernando Távora vai estabelecer e manter com esta casa, lugar de refúgio e de lazer, o respeito pela memória gravada nas suas espessas paredes de granito ou o compromisso entre os vários tempos, passo a passo conquistado, num processo que a ambos deixou diferentes, tudo isso é revelado neste belo texto sobre um espaço que continua a acolher novas gerações. Pertence hoje ao seu filho José Bernardo Távora, igualmente arquiteto. Também ele acrescentou novos capítulos a esta história, empreendendo uma nova intervenção onde está traduzido um entendimento singular do sentido das ações modelares que o precederam e a cumplicidade afetiva mantida com o espaço e a memória do seu pai. Com ele Casa e quinta continuam a manter-se literal e simbolicamente vivas.
 

A abertura do procedimento de classificação remonta a 2017 com a entrega do requerimento e organização do processo realizado pela Arquiteta Ana Motta Veiga, acompanhado por uma lista de 35 personalidades com reconhecimento público nas áreas da arquitetura, história, património e cultura, entre os quais os arquitetos Álvaro Siza, Alexandre Alves Costa, Eduardo Souto de Moura, o arqueólogo Cláudio Torres ou o historiador Paulo Pereira.
 

Consultar:
Procedimento para Classificação (2017)
Portaria 608/2020

Arquivo Digital: documentação relativa ao projeto desenvolvido por Fernando Távora

Escritos Escolhidos #11: Casa da Covilhã, Guimarães




 

 

 



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